Alemão para descontrair

Nosso Município de Juiz de Fora recebeu muitas influências alemãs com a chegada de mais de 1000 imigrantes em 1858. Hoje seus descendentes depois de cinco gerações já somam mais de 60.000 pessoas. É para esses descendentes que dedico esse divertido texto sobre algumas particularidades do idioma de nossos antepassados. A língua transporta não só conteúdo, mas também cultura, tradição, modo de viver e pensar.
No alemão as vezes existem palavras para explicar aquilo que nós brasileiros precisamos de várias palavras. Eles simplesmente unem as palavras “Volk” + “Wagen” e vira Volkswagen para descrever o “carro do povo”, mas no Português precisamos de um “do”, “da” ou “de” para unir duas palavras. Outro exemplo: em “Deutschkurs”, “Deutsch” significa alemão e “Kurs” significa curso e, logicamente encadeadas, significa Curso de Alemão. Tudo uma questão de lógica. Outra curiosidades são as palavras que parecem enormes, mas com o tempo acostuma-se com elas e com as vááárias consoantes juntas. Parece simples mas não é, a dica dos professores do Instituto Autobahn é tentar começar a ler essas palavras enormes começando de traz pra frente.
Na hora de construir frases em alemão com verbos auxiliares e construções temporais, o verbo principal virá sóóó lá antes do ponto final. Imaginem essa frase simples com dois verbos: Eu quero comprar uma bicicleta. Mas em alemão o primeiro verbo vem sempre na segunda posição colado ao sujeito; já o segundo verbo vai obrigatoriamente para o final. Então como fica a frase? “Eu quero uma bicicleta comprar”. E você pode “encher linguiça” a vontade, mesmo assim o verbo ainda continua no final: “Eu quero amanhã pela manhã uma bicicleta rosa com pneu de asfalto na loja do seu Manuel comprar”. E piora, acredite! Quando se tem uma frase ligada a outra como por exemplo com “porque, se, quando ou que”, vai tudo lá pro final: “Ele disse que amanhã pela manhã uma bicicleta rosa com pneu de asfalto na loja do seu Manuel comprar quer”. E por aí vai…
Seguindo essa lógica, em Alemão existem verbos que se dividem em prefixo+raiz. Imaginem os verbos brasileiros fazer e desfazer; um alemão falaria mais ou menos assim: “Eu faço um nó”, mas “Eu faço um nó des” – nesse caso com significado de desfazer o nó. Mas se tiver um verbo auxiliar esse prefixo voltará para o final e se ligará novamente à raiz do verbo e os alemães falariam: “Eu estou feliz, quando eu um nó desfaço”. Mais diversão? Saibam que um prefixo adicionado a um verbo transforma esse verbo em outra coisa totalmente diferente. Para os que gostam de beber uma cervejinha, atenção, o verbo beber significa “trinken” em Alemão, mas “abtrinken” tem o significado de beber, porém beber só um pouquinho de um copo quase transbordando quando se serviu muita bebida. Já o verbo “austrinken” significa beber, porém beber até o fim do copo; “durcheinandertrinken” significa beber vários tipos de bebidas misturando tudo; já “tottrinken” significa beber até morrer e “vertrinken” é gastar todo o dinheiro com bebidas. Por isso nunca se esqueça que o alemão é muito preciso e ao ler um texto em alemão os prefixos vão para o final e é só nessa hora que você vai saber se o cara alemão queria beber até morrer ou beber só um pouquinho.
Mais confusão? Já ouviu falar que os alemães lêem os números ao contrário: pois é 29 em Alemão lê-se “nove+vinte”; entre 21 e 99 se fala de trás pra frente. Se você perguntar a um alemão quantos anos ele tem? Ele vai te responder: nove+vinte (29). Em que ano ele nasceu? três+oitenta (83). O idioma esconde ainda outras surpresas e que o povo alemão é muito liberal já sabemos, mas o idioma ter três gêneros é loucura. Além de masculino e do feminino, existe um terceiro gênero: o neutro. A lua é masculina (der Mond), o sol é feminino (die Sonne) e a menina é neutra (das Mädchen); criança e bebê também são neutros. Pode?
Para os alemães a ordem importa, e muito! E isso faz com que eles tenham criado o hábito de escutar muito bem os parceiros e não interromper aquele que ainda está concluindo sua frase e seu pensamento. Como consequência dessas construções, numa conversa em Alemão, muitos escutam e um só fala. Já na nossa cultura no Brasil, mesmo com as frases que trazem mais de um verbo, eles sempre estão logo no início. Por isso as pessoas se acostumaram logo que escutam os verbos a interromper quem está falando por acharem que já entenderam o que a outra pessoa queria falar. Assim as conversas entre brasileiros acabam virando uma sequência de interrupções – uma festa; os detalhes vão se perdendo e acabamos muitos falando ao mesmo tempo e poucos escutando. Neste momento podemos ver os alemães perdidinhos, coçando a cabeça e sem entender nada do que está acontecendo. Nem melhor nem pior, somente diferente. 😉

Cerveja, alemães e Juiz de Fora

O livro “Cerveja, alemães e Juiz de Fora”

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Lançado em 2015 reúne relatos de cervejeiros e recupera a origem germânica da cidade, para divulgar o crescente polo cervejeiro da região. Alexandre Hill Maestrini é um juiz-forano descendente dos imigrantes alemães que colonizaram Juiz de Fora. Curioso por seus antepassados, começou a pesquisar sobre os alemães – e foi cair, justamente, numa história repleta de cerveja. Os imigrantes alemães chegaram à cidade em 1858, e já em 1861 Sebastian Kunz abria a primeira cervejaria de Minas, a Cervejaria São Pedro. “Juiz de Fora chegou a ter mais de oito cervejarias funcionando paralelamente, gerenciadas pelos imigrantes alemães e seus descendentes. Fascinado pela história, comecei a procurar os cervejeiros legalizados da cidade e entrevistá-los.” A pesquisa foi crescendo e ganhando grandes proporções: Alexandre descobriu, por exemplo, que no exato local da Cervejaria São Pedro hoje funciona a Cervejaria Barbante, de Pedro Peters, descendente de Kunz. Depois de resgatar a trajetória das cervejarias históricas da cidade e registrar o crescimento dos microcervejeiros locais, o autor começou a encontrar os primeiros homebrewers da região – e entrevistou mais de 40 deles. Depois de cerca de 500 horas de pesquisas, entrevistas e revisões, ele havia reunido um apanhado cervejeiro da cidade e mais 72 histórias pessoais. O resultado deste trabalho é um livro repleto de relatos cativantes de pessoas envolvidas com o movimento artesanal na Zona da Mata Mineira.

Rede cervejeira
O livro é uma coleção de histórias. Além da trajetória cervejeira, o autor procurou desvendar as motivações e histórias pessoais de cada cervejeiro. “Quando entrevistava os cervejeiros conhecidos na cidade, cada um contava sobre a existência de mais uma dezena de outros cervejeiros caseiros, que também produziam suas pérolas geladas improvisadamente. Ao procurá-los, percebi que as histórias eram interessantíssimas e que os homebrewers mostravam uma trajetória de vida que sempre se entrelaçava com os outros cervejeiros”, conta. “Para dar mais atualidade ao tema e mostrar que o mercado das cervejas especiais é um potencial desconhecido que cresce a cada dia, decidi que o livro seria uma série de relatos que levaria o leitor a impressão de ele próprio estar entrevistando o cervejeiro.” Além dos relatos, há um breve panorama da história da cidade, incluindo suas origens e o movimento imigratório alemão. Diretor do Instituto Autobahn de Cultura Alemã, Alexandre também vê no movimento cervejeiro uma forma de disseminar a cultura germânica – a cerveja sendo um elo da cidade com seu passado germânico, além de uma possibilidade de negócios e para o turismo na região. Núcleo da Zona da Mata, Juiz de Fora já tem a segunda maior produção artesanal do estado, atrás apenas de Belo Horizonte (Sebrae-MG). O movimento artesanal começou a se fortalecer por lá em 1999, através dos homebrewers – momento que coincide (outra vez) com a chegada de alemães na cidade, desta vez enviados pela fábrica Mercedes Benz. O livro desvenda e faz conhecer os integrantes do polo cervejeiro da cidade, o que também acaba contribuindo para seu desenvolvimento.

Zona de homebrewers
Para colocar a pesquisa nas prateleiras, o autor fez uso do crownfunding, através do site de financiamento coletivo Catarse. Foram 63 apoiadores, além do apoio do Consulado da Alemanha no Brasil, do Instituto Autobahn, da Abrasel Zona da Mata, do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Juiz de Fora e do Independência Trade Hotel. Como produção independente, a obra pode ser encomendada diretamente do autor (alexandre@institutoautobahn.com.br), que, além de escritor, é homebrewer: em 2014, começou a produzir sua Hills Bier. Coincidentemente, nesse mesmo ano surgiu em Juiz de Fora a Acerva da Zona, que em janeiro de 2016 se oficializou como regional da Acerva Mineira. “Os cervejeiros caseiros são a alma do resgate da tradição alemã em Juiz de Fora de se brassar a própria cerveja e apresentar aos amigos e apreciadores, com orgulho, um produto de qualidade. Foi também como homebrewers que os hoje 11 microcervejeiros registrados da cidade começaram suas carreiras de sucesso no setor da cerveja, e é deles que veio a disseminação das técnicas para os interessados em começar a produzir em casa”, destaca Alexandre. A valorização do hobby cervejeiro, que pode virar negócio, transborda de cada página. Uma segunda edição do livro já está nos projetos do autor, para trazer relatos dos muitos outros homebrewers que conheceu depois do fechamento do livro. Em sua contagem, são mais de 130 cervejeiros no polo Juiz de Fora. “Cerveja, alemães e Juiz de Fora”, além de resgatar a influência alemã em suas origens, serve como documento do atual momento cervejeiro da cidade.
Comprar o livro Cerveja, alemães e Juiz de Fora
Alexandre Hill Maestrini
Editar Editora Associada
Ano: 2015
Páginas: 264

Livro Franz Hill

Precisamente no dia 12 de junho de 1858, há mais de 160 anos, os primeiros imigrantes germânicos contratados por Mariano Procópio chegaram na Estação do Juiz de Fora. Tinha sido uma longa jornada saindo de seus países na Europa, velejando pelo Atlântico com dificuldades, chegando ao porto do Rio de Janeiro, subindo à pé para Petrópolis e seguindo ao destino final: a Cidade do Parahybuna, como Juiz de Fora era chamada naquela época. Este dia é considerado como o marco da imigração germânica em Juiz de Fora e em homenagem aos 160 anos da colonização o autor Alexandre Müller Hill Maestrini, tetraneto de imigrantes germânicos e professor de alemão do Instituto Autobahn editou o livro “Franz Hill – Diário de um Imigrante Alemão”, a ser lançado na exata data comemorativa de 12 de junho de 2108.
Depois de lançar seu primeiro livro “Cerveja, Alemães e Juiz de Fora” e traçar um panorama das cervejas artesanais na cidade, o memorialista foi em busca da história de sua família e começou a se questionar porque ocorreram estas ondas imigratórias para a Zona da Mata. O objetivo de suas pesquisas foi inicialmente conhecer as verdades sobre sua descendência, mas em paralelo descobriu as histórias parecidas de centenas de famílias juizforanas. Além disso Hill procurava sua própria identidade e suas raízes, mas acabou descobrindo respostas para muitas das perguntas comuns aos mais de 50.000 descendentes germânicos que vivem hoje por aqui. Como era a região de origem dos emigrantes? Quais razões motivaram as pessoas a deixarem sua terra natal? Como foi tomada a decisão da emigração? Como eram as condições no navio? Como transcorreu a vida nos primeiros anos no Brasil? O que permanesceu da bagagem cultural germânica? Entre outras.
O leitor passeia por uma história prazerosa, educativa e enriquecida com dados de fontes primárias e secundárias e com fatos relevantes, resultado de pesquisas profundas em ambos os países de origem e de destino de seu tetravô Franz. Detalhes importantes deste quebra-cabeças Alexandre e sua esposa encontraram na Alemanha, em estudos e pesquisas nos arquivos históricos disponíveis em Berlin, Hamburg, Wendelsheim, Wöllstein. De volta ao Brasil o casal vasculhou as fontes em Petrópolis, Rio de Janeiro, Juiz de Fora e online. Assim o Diário de um Imigrante Alemão se tornou um resgate, uma síntese entre a memória, a história e a literatura, onde Hill desvenda as aventuras e desventuras de seus antepassados, que deixaram o pequeno vilarejo de Wendelsheim, na Europa Germânica e se juntaram a tantos outros conterrâneos no Brasil. Ele traça um panorama real da vida de Franz, reconstruindo sua realidade baseada em histórias paralelas de outros emigrantes, relatos de descendentes e histórias semelhantes já escritas. O diário imaginário, dirigido ao tetraneto do futuro Alexandre, foi escrito em 1861 por seu tetravô Franz e entregue em 2016 através do canal atemporal da consciência coletiva, relatando suas histórias e memórias entre 1808 e 1861.
Em breve resumo do livro, em 1808 a família imperial portuguesa tinha sido forçada por Napoleão a fugir para sua colônia brasileira. Em poucos anos precisou-se abrir as fronteiras e muitos estrangeiros escolheram o Brasil na tentativa de enriquecer. Anos mais tarde o Brasil ficava independente de Portugal e precisava de exércitos para proteger-se contra Portugal e contra os países do sul, assim em 1824 começaram as colonizações e diversas fazendas receberam os imigrantes agricultores de idioma germânico. Mas nesta época a realidade do Brasil era a escravidão que em 1850 começa a sofrer pressões inglesas para a abolição. O Imperador Dom Pedro II motivado em branquear o Brasil desencadeou nova onda de apoio à imigração e se valeu dos europeus brancos que estavam com dificuldades para sobreviver em meio de uma Europa empobrecida. Quando viram as promessas das propagandas para emigrarem para um paraíso, em pouco tempo muitos decidiram vender tudo e embarcar para o Brasil independente. O autor descreve com detalhes a odisséia marítima; depois de um mês de viagem com privações os primeiros contratados de Mariano Procópio chegaram ao Rio de Janeiro. Subiram à pé a Serra de Petrópolis e seguiram em carroções por vários dias. Eles vieram andando e admirando a natureza tropical, mas já sofrendo com os insetos desconhecidos e o sol tropical. Porém o que não imaginavam era que ao chegarem na Cidade do Parahybuna, em meio aos “Barões do Café”, muitas surpresas ainda os esperavam na Colônia Dom Pedro II.
Ao final o leitor ainda recebe dicas para buscar suas próprias raízes: conversar com seus parentes vivos; buscar em cartórios as certidões de seus pais, avós, bisavós e etc; pesquisar nos arquivos da cidade e da igreja, nas paróquias e nos arquivos diocesanos; pesquisar nos artigos de jornais da época, nos aquivos do judiciário e nos arquivos históricos; ler tudo que encontrar sobre os imigrantes e, é claro, aprender o idioma de seus antepassados para poder pesquisar nas fontes originais.
Encomendas do livro em facebook.com/diariodefranzhill
Por Alexandre Müller Hill Maestrini
alexandre@institutoautobahn.com.br